Profissionais Supercomprometidos

Estudo revela um novo tipo de workaholic: aquele sujeito incapaz de se esquecer dos problemas do trabalho. Você é assim?

Por Amanda Kamanchek

Você planejou um almoço com a família durante uma semana e, quando chega o dia, seu chefe o convida para almoçar informalmen­te, assim como convida a outros dois funcionários que estavam por ali na ocasião. Você, então, cancela o compromisso fami­liar, num piscar de olhos, por uma necessidade de não recusar o convi­te da chefia. Se a situação acontece uma vez, tudo bem, mas se já faz al­guns meses que você perde a happy hour com os amigos, os fins de semana e também as férias com a família, é possível que seja um profissional “supercomprometido”. A expressão, utilizada pelo psicólogo do Labora­tório Fleury, Thiago Pavin, caracte­riza um perfil profissional muito comum nos dias de hoje. Trata-se daquele indivíduo que se entrega de corpo e alma aos projetos da empre­sa, esquecendo até mesmo de que tem uma vida pessoal fora dali.

As pesquisas do Fleury mostram que o supercomprometido é prova­velmente um workaholic, mas com algumas particularidades, pois ele não está sempre estressado e pode reagir muito bem a alguns pedidos da organização, se sentindo motiva­do e realizado. Além disso, costuma se tratar de um estágio mais passa­geiro, durante um projeto específico ou relacionado a uma meta que ele deseja muito atingir. “O supercomprometido gerencia sua vida em torno do trabalho, mas espera mais do que ninguém ser reconhecido por esse esforço”, diz Thiago. Muitos profissionais costumam manifestar esse tipo de problema porque têm dificuldades pessoais de antemão. “Geralmente é uma pessoa que tem uma relação um pouco sofrida com os filhos ou cujo casamento não vai muito bem”, diz o psicólogo.

Há diversos casos de profissionais supercomprometidos que acabam se esquecendo de importantes com­promissos pessoais. Como Homero Mateus Fonseca Junior, de 45 anos, gerente de vendas da filial de Brasí­lia da Netsolutions. “Fui ao Rio de Janeiro trabalhar em um projeto e fiquei cinco dias sem sair de dentro da companhia. Acabei esquecendo que, no meio de um desses dias, se­ria o meu noivado.” Ele não somen­te tomou uma bronca da companhei­ra, como foi abandonado por ela. Dez anos depois, ele ainda reconhece sua dedicação excessiva, mas procura controlar a agenda para evitar so­brepor as prioridades do dia. Entre­tanto, se desligar do trabalho ainda é difícil para ele. “Acho que os pro­blemas da empresa precisam ser respondidos sem demora. Eviden­temente, ser supercomprometido tem lá seus desconfortos, mas tam­bém surte bons efeitos”, diz Homero.

O supercomprometido até relaxa em períodos mais tranquilos, mas, ao menor sinal de aumento da de­manda, é o primeiro a vestir a cami­sa da corporação e a perder o senso crítico a respeito do volume de tra­balho assumido. Está sempre se dedicando bastante, até mesmo des­marcando compromissos pessoais. Porém, se não é valorizado, fica es­tressado e sente um vazio.

O grande problema desse perfil é que, na maioria das vezes, ele não percebe que a escolha de ficar além do horário é da pessoa. E, quanto mais se esforça, mais provável que adoeça, apresentando uma série de sintomas, como diminuição da eficiência do sistema imunológico, pro­blemas cardiovasculares, podendo causar infarto ou acidente vascular cerebral (A VC) em pessoas com fa­tores predisponentes, crises de asma e diminuição da produtividade no trabalho, pois o estresse crônico pre­judica a criatividade, a memória, a atenção e a capacidade de gerenciar relacionamentos interpessoais. Ka­tilen Marcondi, de 31 anos, fazia hora extra todos os dias na multinacional de tecnologia em que trabalhava. “Eu perdia encontros com família e ami­gos e fiquei com problemas de saúde. Passar mal no escritório era uma ro­tina e acabei emagrecendo 7 quilos”, diz. Custou até que ela mudasse de emprego. Mas, em 2006, ela foi con­tratada pela Elektro, onde atualmen­te é coordenadora de logística. Lá, às 18 horas o ar-condicionado e as luzes são desligados para que todos se lembrem de que o expediente se encerrou. Com a mudança na cultu­ra empresarial, ela foi buscar reali­zações pessoais. “Comecei a fazer cursos depois do trabalho, voltei a malhar e dou mais atenção ao meu marido”, diz a executiva.

Incentivar o lazer, o esporte e a alimentação saudável é uma prática cada vez mais adotada pelas corpo­rações para impedir que os profissio­nais desequilibrem a balança da pro­dutividade e estresse. Mas o limite tem de partir do próprio funcionário, compreendendo que não é o fim do mundo recusar um convite de almo­ço do chefe ou ir para casa ao termi­nar seu expediente. “Refuta sempre sobre a importância de equilibrar vida pessoal e profissional. Você pode começar se inspirando em um colega ou alguém famoso que saiba manter esse equilíbrio” diz Thiago, psicólo­go do Laboratório Fleury.

Fonte: Você S/A

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Um comentário sobre “Profissionais Supercomprometidos

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